Parindo filho, palavra e luta!

Na última quinta-feira, dia 4 de março, a Oficina de Música e Literatura do Projeto Ciranda Cultural contou com a presença da poeta muriaeense Tainã Vidon, que promoveu uma roda de conversa em torno de suas vivências como mulher, mãe, sua formação educacional e a sua produção poética.


Tainã Vidon que atualmente reside em Lavras - MG, como ela mesma se define, “é mãe, uma pesquisadora da vida, educadora em movimento e que escreve quando as palavras escorrem e encontram abrigo, remanso, poesia e luta”, é uma pessoa para qual a poesia é uma forma de esperança. Ao longo de sua fala, a autora apresentou aos participantes alguns poemas, estes amplamente discutidos em instigantes conversas com os participantes da Oficina, que, entre outros pontos, contam a maternidade nua e crua, sem romantização; captam os momentos de beleza e espanto muitas vezes invisibilizados na vertigem do cotidiano e que propõe a poesia como um processo de renascimento, “parto, medo, ruptura”, uma ferramenta para desestabilizar o leitor para perceber algo novo, logo ali ao seu alcance.



Separamos aqui uma das poesias apresentadas durante o encontro:


duas mulheres e um homem,

todos de crachá no peito,

saem do prédio para fumar.

conversam coisas que fazem rir.

a mulher de cabelo muito curto

segura o cigarro

puxa e solta a fumaça

como se respirasse.

a jovem de cabelos cacheados

fuma coreografada

pelo olhar da outra,

segura bambo o cigarro

passa a língua pela gengiva

incomodada.

ela quer que a outra pense

que gosta de fumar.

é uma menina de cabelos cheios

da juventude

e demora a levar o cigarro à boca

não gosta tanto do que sente

fumando

mas quer estar ali.

há uma cadência precisa nos gestos

da outra que gosta de fumar,

ela usa o cigarro até o fim e

sopra a fumaça para cima com um giro

lento do pescoço.

a moça quer um dia fumar assim

como se não soubesse que está fumando.

o homem acompanha as duas mulheres de

volta ao prédio

mas não faz nada de extraordinário.